Em 23 de agosto de 2021, para comemorar os 104 anos de Joaçaba, nascia a 1ª Mostra de Cinema Chica Pelega — Contestado em Foco. Sem edital, feita na raça e em parceria com o Cine Gracher, a mostra ocupou as três salas do cinema em duas rodadas de sessões, às 11h e às 13h30. O nome é uma homenagem a Francisca Roberta, a Chica Pelega, nascida em Limeira (atual Joaçaba), líder e combatente da Guerra do Contestado — mistura de lenda e história, e sinônimo de força. A curadoria foi do cineasta joaçabense Rudolfo Auffinger, que já mantinha um cineclube online e gratuito pelo YouTube da Pupilo TV.

Os dez filmes se organizaram em três eixos curatoriais, cada um com um convite:

Filhos da Terra — “para não esquecer dos povos que vivem e resistem à nossa terra.” Aqui entraram Kiki – O Ritual da Resistência Kaingang (Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, 2014), sobre a retomada do mais importante ritual kaingang na Aldeia Condá, no oeste catarinense; e Terra Cabocla (Marcia Paraiso e Ralf Tambke, 2015), que olha, cem anos depois, para a força de resistência cultural do povo caboclo — o representante original da população de Santa Catarina, silenciado por um século de uma guerra de extermínio.

Nossa Memória — “para nunca esquecermos quem somos.” O eixo reuniu três obras sobre o Contestado e sua reverberação. Irani (1983), do conterrâneo Rogério Sganzerla — que deu a capa da mostra —, mistura o cineasta à festa que marca o aniversário da guerra na cidade de Irani. Olhar Contestado (Fabianne Batista Balvedi, 2012) reconstrói, por animação e rotoscopia sobre as fotografias de Claro Jansson, os locais e personagens do conflito que envolveu 20 mil sertanejos e 80% do Exército brasileiro entre 1912 e 1916. E PSW – uma crônica subversiva (Paulo Halm e Luiz Arnaldo Dias Campos, 1987), com Antônio Fagundes, acompanha a última viagem de trem do deputado cassado Paulo Stuart Wright, desaparecido sob a ditadura militar.

Causos e Contos — “para não ter medo de ser o que se é.” Fecharam a seleção Larfiagem (Gabi Bresola, 2017), sobre a língua secreta inventada pelas crianças que trabalhavam na estação ferroviária de Herval d’Oeste nos anos 1950 e que sobrevive na memória de seus últimos falantes; e o docudrama Primeiro Assalto ao Trem Pagador (Ernoy Luiz Mattiello, 2013), que revive o assalto de 1909 na região que viria a ser Pinheiro Preto.

Ao fim das sessões, o público ainda participou de bate-papos com realizadores — entre eles Fabianne Balvedi, Marcia Paraiso e Paulo Halm — num “Lançamento ao Vivo” transmitido pela Pupilo TV.

Nada disso teria acontecido sem quem colocou a mão na massa. Um agradecimento aos voluntários desta primeira edição: Rudolfo Auffinger (direção geral e curadoria), Cristina de Marco (comunicação), Keythe Tavares (produção) e Luana Callai (fotografia, da Janela Verde) — além dos parceiros Cine Gracher, VMS Filmagens e Móveis Willy. Mais do que uma sessão de cinema, a estreia plantou o que viria a se tornar um circuito: o olhar caboclo e contestado ocupando a tela, perto de casa.