A 3ª Mostra de Cinema Chica Pelega — edição quilombola teve ampla repercussão, do Oeste catarinense ao litoral, chegando à TV da Assembleia Legislativa e ao canal oficial da cultura do estado. Mais interessante que o alcance, porém, foi o recorte: a partir de um mesmo release, cada veículo iluminou uma faceta diferente da edição — e é por essas escolhas que se enxerga o que a mostra significou em cada lugar.
O anúncio: o peso histórico do território
Quem foi mais fundo no contexto foi o Jornal Celeiro, de Campos Novos, ainda em maio. Em vez de tratar a Chica Pelega como “mais uma mostra de cinema”, o jornal ancorou a edição na geografia quilombola da região: lembrou que a Invernada dos Negros foi a “primeira comunidade quilombola do Estado a receber a certidão de reconhecimento”, em 2004, e trouxe números que não costumam vir num release de cinema — as 320 famílias da Invernada, as 26 do Campo dos Poli e as 21 comunidades quilombolas de Santa Catarina, espalhadas por Abdon Batista, Calmon, Campos Novos, Fraiburgo, Matos Costa e Monte Carlo. Foi também esse texto que fixou a ambição da edição em números — “21 sessões de cinema, 26 escolas atendidas e mais de 2.500 espectadores” —, enquadrando a mostra menos como evento e mais como política de território.
A estreia: cinema gratuito e a live de abertura
Já o Raízes Diário, de Joaçaba, no fim de junho, virou a lente para o acesso. O que o release trazia como agenda, a matéria transformou em convite: destacou que “durante todo o mês de julho, é possível assistir a todos os 27 filmes da mostra de forma online e gratuita” e que a abertura, “às 19h30, contará com a exibição online do curta-metragem Disque Quilombola”. O mesmo enquadramento apareceu no Portal da Cidade e na coluna de Éder Luiz, que abriu o foco para os “municípios da região” que receberiam as sessões presenciais e as oficinas do cineasta cubano Yasser González nas próprias comunidades.
A volta a Campos Novos: os nomes por trás
Quando a mostra chegou de fato, em julho, o Jornal Celeiro fez o movimento contrário ao do anúncio: saiu dos números e foi às pessoas. A reportagem nomeou as lideranças que estariam nos debates — Edson Camargo, da Invernada dos Negros, e Alessandro e Cristiane, do Campo dos Poli — e contou que a programação presencial “terá o seu encerramento na comunidade quilombola Invernada dos Negros”, no dia 14, dentro do próprio quilombo. Até a descrição dos filmes ganhou tom afetivo: “crianças do Espírito Santo conversam de um jeito divertido sobre como é a vida em uma comunidade quilombola”. Era a mesma mostra do release — mas contada de dentro.
Além da região: TV, rádio e institucional
A cobertura também extrapolou a serra. A TVAL, da Assembleia Legislativa de SC, levou a edição ao programa “Rede de Inclusão”, e a Fundação Catarinense de Cultura a incluiu no calendário oficial do estado. No rádio, a UNOESC FM 106,7 abriu espaço para um bate-papo com a produtora Fernanda Mingori e o líder comunitário Edson Camargo — de novo, a voz da comunidade no centro —, enquanto a ASCUCCA 104,9 FM e a Simpatia FM 105.5 anunciaram a volta a Campos Novos. No impresso, a edição apareceu no Correio da Praia (litoral, nº 111), na coluna “Disque quilombola”, de Lu Kilombola, e na edição de papel do Raízes Diário.
Da certidão de reconhecimento de 2004 aos nomes de Edson, Alessandro e Cristiane; do “cinema gratuito o mês inteiro” ao pavilhão da Invernada lotado no encerramento — foi a mesma história, contada de muitos ângulos. E talvez seja esse o melhor retrato do que a edição quilombola foi: não um evento com um recado só, mas um território inteiro se reconhecendo na tela.
